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Profe eu não sei como ir lá e brincar

20/02/2020

Um dia desses estive acompanhando um grupo de crianças para um brincar livre em uma praça. O grupo era grandinho e logo que chegamos as crianças já foram elegendo onde e com quem iriam brincar. A grande maioria começou a brincar de pega-pega, outros brincaram de vender sorvetes, de fazer castelos na areia, de jogar bola e andar de balanço. Volta e meia, algumas crianças migravam de uma brincadeira para outra e de grupos também. Tudo fluindo naturalmente, com acordos sendo feitos, pelas próprias crianças, para poder entrar na nova brincadeira e ser “aceito” no novo grupo. Às vezes surgia algum conflito, do tipo: “ah, mas eu só sei brincar de outro jeito”. Porque realmente não é nada fácil aceitar um novo jeito de fazer as coisas. Mas, tudo fluindo.

Em um determinado momento, uma menina que estava andando de balanço vem em minha direção com uma carinha triste. Perguntei se estava tudo bem e ela disse que sim. Convidei para sentar ao meu lado, olhei bem em seus olhos e perguntei se ela estava se sentindo bem. E a menina começa a chorar e me mostra um machucado que tinha feito no dedo do pé e que estava doendo.

Tratei de olhar com cuidado seu machucado, perguntei como foi que aconteceu e depois comentei que ao retornar para a escola, faríamos um curativo para protegê-lo. O machucado era bem pequeno e percebi que a dor não era bem deste machucado, mas foi por esta via que ela conseguiu verbalizar o seu sentimento, a sua dor.

Ela se aninhou em um abraço meu, como quem pedisse um colo. Acolhi! Depois perguntei se ela gostaria de brincar com outras crianças. Ela me disse que não sabia do que poderia brincar. Comecei a relatar o que estava vendo: pode ser de fazer castelo, de brincar de pega-pega, de correr, de jogar bola. E então ela me diz olhando em meus olhos e chorando: “Mas profe eu não sei como ir lá e brincar”.

Meu coração pode sentir o que esta menina estava sentindo. Aqui ela estava me dizendo que para ela não era tão simples assim chegar em um grupo de crianças e começar a brincar. Por algum motivo ela não se sentia segura e já não conseguia chegar e simplesmente brincar. Primeiro chega o medo da rejeição.

Comentei que se ela quisesse, eu poderia ajudá-la. E ela mencionava com a cabeça que não e chorava. Ela então me disse que nunca consegue brincar assim com as crianças em outros lugares que ela vai também. Comentou que só na escola ela brinca com outras três amigas (e somente com elas).

Sabe aquela dificuldade que nós adultos muitas vezes sentimos ao ingressar em um grupo novo, que ainda não conhecemos e como pode ser muito difícil para alguns de nós, nos sentirmos acolhidos, aceitos e bem vindos? Esta inclusão em grupos é algo que vamos experimentando desde a infância, pelo brincar, e este é um período riquíssimo para incentivarmos aquelas crianças que já apresentam dificuldades de socialização.

Sabe aquela criança bem quietinha, que quase não fala, quase não se manifesta, bem querida? Essa criança precisa do nosso olhar, da nossa atenção e da nossa ajuda para se sentir incluída. Cada criança tem o seu jeito e isso deve ser respeitado. Porém não podemos ficar omissos diante de uma criança que sofre por não se sentir aceita, do jeito que é e por não se sentir parte integrante de um grupo. Laura Cristina Nardi - Psicopedagoga

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